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terça-feira, 12 de junho de 2012

MODERN SOUND

Mãe Rosa, Tia Arlete e eu na Modern Sound, 03/2010
 
Freqüentei esta casa ainda garoto, desde o tempo em que as filas do Bruni Copacabana chegavam à calçada da Barata Ribeiro quando nos idos anos 60 assistíamos os Beatles nos cinemas lançar Help e novas canções. Esse maravilhoso espaço desapareceu em dezembro de 2010. Como aconteceu quando aterraram as dunas de areia de São Conrado e Barra da Tijuca, demoliram o Palácio Monroe e o Morro do Castelo ainda bem antes. A vida segue com menos sonoridade, história e graça... You are always on my mind...

MODERN SOUND
Celso de Lanteuil
09/03/2010

Hoje estive numa das mais lindas lojas do planeta
Se existe arte no comercio, aqui ela transpira
Borbulha como o leite que ferve e sai da leiteira
O negócio deles é vender música. Ritmo, estilo, idiomas, instrumentos
Uma sonoridade diversa lá está. Onde os vendedores conhecem música

Alguns até cantam. Mas por melhor que seja a oferta e o produto...
A crise não compra CDs, DVDs, nem os velhos e imbatíveis LPs
Quando a carteira esvazia, ou o down load cresce
O pouco que sobra é para comprar o pão e o feijão
E muitas casas ficam em silêncio

Contudo, muitos de nós precisamos da voz da Elis, da gaita do Toots
Do balanço dos Tribalistas, para nos mantermos nas alturas
Hoje no palco da Modern Sound assisti a encarnação de Elvis
O vendedor de LPs Elvis Presley Xavier nos mostrou que canta como Rei
Deu um belo recado e deixou a platéia eufórica

Cantou e dançou “believe me, believe me”
Love me tender... It is now or never…
Os presentes acompanharam cantarolando e dançando
A Modern Sound precisa de nós clientes
Mas nós precisamos dela para colorir os nossos caminhos

Sem a música desse lugar Copacabana vai perder muito da sua graça
E ficar mais barulhenta. Alguns lugares precisam se eternizar
Como as canções que Elvis nos deixou
É o caso desse negócio que nos trás alegria e boas recordações
Por isso a Modern Sound não pode parar. A little of less conversation...

terça-feira, 5 de junho de 2012

MEU AMIGO DESAPARECEU

Inicio de incêndio no bairro Plateau, Maio 2012
Ilha da Praia, Cabo Verde

MEU AMIGO DESAPARECEU
Celso de Lanteuil
Lisboa-Porto de comboio
29/05/2012

Meu amigo desapareceu. Sumiu!
A mulher e ele estão foragidos
Devem estar correndo algum tipo de perigo
Eu os conheço muito bem

Pelo trabalho, para a família
Para o trabalho, pela família
Eles vão e voltam. Fizeram assim nos últimos 30 anos!
Ele trabalhou tanto que o coração quase explodiu

Engordou vinte e poucos quilos
Passou muitos anos engolindo o almoço
Ele é um homem brilhante
Possui uma inteligência privilegiada

É dono de um humor raro, sensibilidade intensa
E é muito criativo
Mas sua vocação é trabalhar
Trabalhar e trabalhar

Ele estava exausto. Desiludido com os nossos governantes
E as pessoas de modo geral
Sobram desonestos e a incompetência vigora, costumava me dizer
Então trabalhava ainda mais para compensar

De tanto trabalhar, esqueceu dos sonhos, das suas raízes e amigos
Ele está foragido. Não matou. Não roubou
Nem cometeu delito que justifique esse isolamento
Deve estar trabalhando como nunca fez

quinta-feira, 31 de maio de 2012

EXÍLIO

Cabine de um Boeing 767-300
avião que trabalhei por quatorze anos como Comandante e Instrutor de voo
A aeronave da foto pertenceu a Varig, mas nessa ocasião o proprietário era a EAA 
Jeddah, Arabia Saudita, 10/11/2011

EXÍLIO
Celso de Lanteuil
14/01/2009

Mal chegou, partiu
Abraçou-me bem forte
Para logo em seguida suavemente desaparecer

Onde estarão meus amigos, que lugar visitam?
Que amizades os acompanham?
Que risadas sorriem?

Estarão motivados?
Amando?
Lutando novas batalhas, sofrendo derrotas?

Será que me reconhecerão?
Será que os reconhecerei?
Mudaram eles, ou mudei eu?

Neve repentina em Bishop's Stortford, 23/03/2008

POETAS E POEMAS

 Poesia nas ruas de Maputo,
Moçambique, 27/10/2011

SÉRIE POEMAS INSPIRADOS NUM INDIGNADO 2
Celso de Lanteuil
UK, 29/04/2007
Inspirado num poema de Brecht
POEMAS 1913-1956, Editora Brasiliense

Poemas falam de amores
De dores, dos piores medos, das melhores horas
De traições, de maldições
Covardias e heresias

Pode um poema tudo descrever?
Saberá o poeta melhor compreender?
Versos iludem, nos deixam grogues
E também nos levam a lutar

Apesar de tudo ver, indicar, denunciar e gritar
Poetas e poemas não impedem psicopatas de torturar
Egoístas de trair, fascistas de subjugar
Falsos de rir e mentir

Mas nos fazem pensar sobre os rumos que seguem os homens
Em mato, tu roubas, ele tortura
Nós traímos, vós invejais
Eles fazem poemas

Um bom poema é a contramão
A morfina que elimina a dor
O amor que sufoca o ódio
A água que acaba com a sede

Travesseiro para cabeças cansadas
Alimento para espíritos famintos
Eu verso, tu escreves, ele cria
Nós compomos, vós fazeis rimas, eles interpretam as emoções

Seria possível a vida sem os poemas? Creio que não
Poetas e versos são tão necessários quanto um abrigo
Um grande amor, uma obra de arte, uma mente brilhante
Um mestre da ciência ou um grande líder espiritual

É uma necessidade do homem para prosseguir
Um remédio eficaz para corações angustiados
Poetas e poemas nos fazem repensar sobre as coisas simples da vida
E da mesma forma, pelos absurdos que ela nos revela

Poeta de rua em Maputo
Moçambique, 27/10/2011

quinta-feira, 24 de maio de 2012

SERVOS


Trabalhadoras no Mercado do Plateau, Ilha da Praia
Abril de 2012, Cabo Verde

SERVOS
Celso de Lanteuil
2010
 
São eles que nos aquecem
Lavam nossas cuecas
Limpam o chão que pisamos
 
Eles nos massageam as costas
Revivem nossa memoria
E transportam nossas sacolas
 
São eles que riem das nossas piadas
Espremem as nossas laranjas
Morrem as nossas mortes
 
Eles estão em todos os lados
Apagados, esquecidos, desdentados
Carregando os nossos fardos
 
Vivem para nos servir
Nos colocar no poder
E assistir nossa vida rica seguir

Rickshaws (Vespas com cabine) e Tuk Tuks (versão bicicleta)
Transportam passageiros defronte ao Red Fort
New Delhi, 26/11/2011

CONQUISTAR PARA TER

A impressionante fortaleza Red Fort em Old Delhi, 26/11/2011
Patrimonio da Humanidade

CONQUISTAR PARA TER
Celso de Lanteuil
2/04/2007
 
Por vezes penso que o homem surgiu para oprimir
Tirano por natureza
Vampiro por necessidade
Nasceu para viver bebendo a esperança dos outros
E comer os sonhos dos seus semelhantes
 
Na idade da pedra assim fazia para sobreviver
E sobreviveu porque se uniu
Para se defender do frio e da falta de alimento
Mas depois, para conseguir o melhor bife
Foi se isolando
 
Em algum momento durante sua trajetória
Começou a querer mais do que seus próximos
Mais carne, mais pão
Uma moradia maior e mais segura
Então precisou de escravos, de exércitos
 
Hoje anda cada vez mais só
Luta pelos seus interesses e sorri para disfarçar
Faz um discurso que agrada a platéia que lhe ouve
Vende e compra almas, tudo para atingir a meta
E ser muito feliz, apesar da desgraça que constroi


Trabalhadores fazem a manutenção da fortaleza

DENTRO DO COMBOIO

Uma habitação bem precária em Antananarivo, Madagascar

DENTRO DO COMBOIO
Celso de Lanteuil
Lisboa-Porto, 20/05/2012

Ele pede ajuda
Para a mãe
Pelos irmãos
Por ele que precisa resistir
 
Ele escreveu num papel sua condição
Fez muitas cópias que distribui dentro do trem
O que ali está escrito é forte
Não vou repetir
 
Ele pede ajuda. Tem coragem para isso
Seu olhar me convence. Faço a minha contribuição
Ao redor paira a suspeita
Será este mais um golpista?