Trecho da estrada que liga Agra a Nova Delhi
Novembro de 2011
NEM
QUE A VACA TUSSA
Celso
de LanteuilAntananarivo, 13 de Março de 2012
Nem que a vaca tussa
Ou a galinha voe
E o homem das cidades volte a andar descalço
Sem medo de cortar os pés
Mesmo que eu chegue em Jupiter e lá consiga habitar
O amor resista aos novos tempos
As guerras acabem
As armas desapareçam
Ainda que não haja mais lixo e a miséria venha terminar
Não mais existam crianças e velhos tristes
As doenças sejam extintas
O homem encontre sentido e seja feliz
Mesmo que os passarinhos retornem a cantar
Os jovens aprendam o significado do amor
As águas dos rios tornem-se cristalinas
As florestas envolvam o concreto e os animais vivam livres
Mesmo que a escravidão seja uma lembrança distante
Assim como não existam mais opressores
Que eu possa rezar para o meu Deus sem te insultar
E tua cor não seja motivo de dor
Seu sorriso seja verdadeiro
Exista esperança para todos
A vida torne-se muito mais longa
Os sistemas estrelares levem mais tempo para morrer
Animais, plantas, minerais existam na sua plenitude
E nossa história não seja esquecida
Mesmo assim, em algum lugar, vida e morte estarão a dialogar
A se tocar como íntimos parceiros
Nesse processo interminável, onde nossa incompreensão perdura
Nossa angústia cresce com o passar dos anos
Nossa indiferença passa a ser uma defesa frágil do inconsciente
Que a qualquer hora se desmorona como castelo de areia
Porque para se compreender tal mistério
É necessário mais da vida saber
Do amor ser conhecedor
Da nossa dimensão e missão bem entender, e sentir
Nem que a vaca tussa
Ou a galinha voe e eu chegue em Jupiter
As guerras acabem e as armas desapareçam
Mesmo que eu consiga encontrar um sentido...
Templo em Old Delhi, 26 de Novembro de 2011