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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

BEM NO MEIO

BEM NO MEIO
Celso de Lanteuil
sobre fotografia de multidão, aula da Mestra Ninfa Parreiras
Estação das Letras, 23/01/2003
 
Mensagem de Robert F. Kennedy
JFK Library, Boston

Impossível não sentir um aperto no peito
Perceber a vontade
Entender a necessidade
Saber o porque
 
Pensei em desistir
Em largar tudo para lá
Pois no começo éramos poucos
Mas sonhávamos com convicção
 
Talvez tenha sido essa a nossa maior força
Então vieram outros a saber o que estava acontecendo
E muitos outros mais se aproximaram de nós
Queriam descobrir por que estávamos com tanta vontade
O que nos animava tanto
 
Alguns perguntavam o que ganhariam com tudo aquilo
Que garantias receberiam...
Quando de nós ouviam que as vantagens não eram imediatas
Que o lucro não era em moeda
Corriam
 
Corriam para o outro lado
Corriam para bem longe
E nos maldiziam, nos atacavam
Que absurdo!
Que luta é essa que não dá dividendo?
 
Mas ainda assim, insistimos
Mostramos que o amanhã bom, é bom para todos
Que segurança boa, é aquela em que todos podemos ir e vir
Sem medo
E que enquanto há resistência existe esperança
 
Com fome, a vida é prisão
Seja fome de pão
Fome de teto, de amor
De sonho
Fome de trabalho e profissão
 
O tempo passou
Quando me dei conta
Lá estava eu no meio daquele povo
Sem enxergar a outra ponta
De tanta gente presente, de tanta gente...


Um pedaço do muro de Berlim
Peça símbolo da força da democracia
Doada ao Museu JFK, 10/2012


terça-feira, 30 de outubro de 2012

AMIGOS

Amigos da cidade
Porto, outubro de 2009
AMIGOS
Celso de Lanteuil
Praia, 16 de Agosto de 2012
 
Não existem melhores amigos
Eu não acredito em pior amigo
Ou se é amigo, ou se é outra coisa qualquer
 
Amigos tem defeitos
São azedos, irritados, por vezes agressivos
Possuem inimigos, tem manias
 
Mas nos compreendem e nós a eles
Fazem confidências
Guardam as nossas
 
Nos conhecem
Prestam atenção no que fazemos
Sabem dos nossos desejos e sonhos
 
De quando estamos amargos
Tristes, fortes, alegres ou fracos
Conhecem o nosso jeito
 
Olham e percebem o que podem esperar
Aguçados observadores 
Das nossas dores, fraquezas e angústias
 
Adoram nossas histórias
Discordam das nossas idéias, naturalmente
Nos enxergam corajosos e invencíveis

Nossas fraquezas relevam
Mas nos dizem quando é hora de parar
Hora de pedir perdão
 
Entendem explicações
O modo como interpretamos a vida
Aceitam nossa ausência. Nunca nos esquecem
 
Se o tempo escapa rápido demais
E na distração da vida nos afastamos
Eles esperam. Sabem que na primeira chance voltamos...
 
De sorrisos, abraços, caminhadas, dores e lutas
Um amigo vai se formando
Para lá estar, na hora certa sem falhar
 
Pode-se viver em conflito, na dor ou na doença
Não se ter dinheiro ou recursos
Mas tudo se ameniza, quando ao lado se tem um amigo

Amigos em Stansted Mountfitchet Castle
UK, Agosto de 2007
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

PEDRA PORTUGUESA

Calçada do século 16, Cidade Histórica
Ilha da Praia, Maio de 2012

PEDRA PORTUGUESA
Celso de Lanteuil
Praia 07 de Junho de 2012
  
Cada pedra portuguesa se encaixa num espaço
Há um ponto, um ângulo, um corte, uma forma desigual
Que ao ocupar seu lugar, vai formando um painel
 
O Homem, como os animais, os vegetais e minerais, ocupa também um lugar
E na sua diferença de ser, estar, fazer e poder
Ajuda a criar um outro tipo de mosaico
 
Se uma pedra sai da sua posição abre-se um vazio
Este poderá provocar um desequilibrio
Pedras podem se soltar, o piso ceder, um buraco surgir
 
O Homem conseguiu chegar até aqui muito por sorte
Continuou sua existência
Também por subjugar adversários naturais com a ajuda dos seus pares
 
Grupos sociais e sociedades se organizaram
É o que temos
De uns tempos para cá, um novo representante da espécie vem ganhando consistência
 
Ele pensa somente nele
Trabalha, goza, produz
Sonha para ele
 
Conquista e constroi para se satisfazer, e encontrar sua felicidade
Ele não se percebe como a pedra portuguesa
Que ao se acomodar entre outras formatações imperfeitas forma um todo

Elétrico circula entre calçadas com pedras portuguesas
Lisboa, Maio de 2012

INESPERADO BOM

Locais secam suas roupas a beira mar
Cidade Velha, Ilha da Praia, Cabo Verde, Maio de 2012

INESPERADO BOM
Celso de Lanteuil
11/12/2002

Brisa boa
Sol da manhã
Marola calma
Água fresca
Areia pra pisar descalço

A pele aquece devagarinho
Queima bem suave
Inesperada suavidade
Fica me lembrando sem se fazer perceber
Aquilo que eu já havia esquecido ter

Eu de paletó e gravata recordo
A impropriedade da roupa questiona
Onde estão os meus sonhos?
Para que tamanha sobriedade?
Por que tanta formalidade?

Faz-me falta a imaturidade juvenil
Aquele desejo de arriscar
E brincar
Quando foi mesmo que deixei escapar?
Quantas mudanças sem perceber!

Tenho vontade de tirar o paletó
Arrancar a gravata, ficar de cueca
Sem sapatos e meias
Jogar o relógio no mar
Lap top, agenda e celular

Ensaio o movimento de afrouxar o colarinho
É o melhor que consigo fazer
A buzina me chama de volta
É o tempo presente que não aguarda
Vou
Crianças jogam futebol na Cidade Velha
Ilha da Praia, Maio de 2012



NAVIOS NEGREIROS NÃO AFUNDAM


Restos de um navio
Ilha do Sal, Julho de 2012

NAVIOS NEGREIROS NÃO AFUNDAM
Celso de Lanteuil
Rio, 19 de maio de 2006
Acho que inventei a palavra “cambalhotam”

Pobre percepção         
Destas pessoas que só enxergam as próprias mãos
Que só visitam os seus lugares
E contam apenas seus casos

Pobres corações
Juízes implacáveis das multidões
Tolerantes das suas transgressões
Algozes por convicção, sempre em nome da paz

Silêncio cidadão!
Nos porões, negros escravos vomitam as tripas
Esfolados vivos
Suas almas gritam

Nos sinais da cidade
Crianças malabaristas
Cambalhotam por atenção
A cidade indiferente passa

Grita a vizinha que o cachorro dela morde
Que come gente viva
E que na desordem da vida
Ela é que lhe dá a comida

Correm apavorados senhoras e senhores
Donos de índios, japoneses, brancos e africanos
Escondem-se assustados
Nas suas casas fortalezas, bem protegidos de gente

Você que ganha salário sempre mínimo, guarda trocado e sonha barato
Que economiza o sapato e cata no chão uma solução
Você que sorri com os dentes nas mãos. Cuida-se!
Eles te querem de quatro amarrados num porão

População desfavorecida
Ilha do Sal Julho de 2012


segunda-feira, 30 de julho de 2012

OPERAÇÃO MATEMOCIONAL

Litogravura de Rodrigo Cunha
primeiros trabalhos

OPERAÇÃO MATEMOCIONAL
Celso de Lanteuil
Rio, 31/01/03
Introdução aos Gêneros Literários
Estação das Letras, Suzana Vargas

Simples
Muito simples
Como 2 + 2 são 4
Não como 1327 divididos por 33

Existem pessoas
E pessoas
Umas são 2 + 2
Outras são 7231 divididos por 95

Pessoas que sonham
Que partilham
Dividem o pão
Constroem o chão

Existem as que insistem
Em construir muros e labirintos
Para lá dentro viver
E nos prender

Pessoas são fáceis
Difíceis
São para mais
E de menos

Sabem diminuir
Especializam-se em dividir
Boas em multiplicar
Outras em somar

Quantas operações
Tantas fórmulas
Equações
Haja cálculo!

O milagre dos peixes
Vila de pescadores na Ilha do Sal 07/2012



terça-feira, 26 de junho de 2012

TO MY OLD FRIEND

One of my favorite albums
Toots Thielemans and Elis Regina, Aquarela do Brasil
Recorded in Sweden 1969
Great musicians around: Antonio Adolfo, Roberto Menescal, Wilson das Neves
Jurandir Meirelles, Hermes Cortesini

THE CAPTAIN OF THE MELODY
Music and lyrics by Celso de Lanteuil
Porto, 07/11/2011 

I am talking about a simple man
A genius of emotion
The bright mind of the blue note
A master of the Jazz

His first love was Elis
Sivuca, Tom, Ivan Lins
He travelled many times to Rio
His soul is a bit carioca

He is a kind of masterpiece
The hero of a nation
A Belgium gentleman
The Captain of the melody

I met him at Copenhagen
He took me to the Tivoli
Invited by the Queen
To play with the local symphony

He introduced me as his manager
And put me on stage
And played The Shadow of Your Smile
Amazingly

He gave us Bluesette
His music will last
He gave us his best
Toot’s, the Captain of the melody

One of my favorite records is Old Friend
Arranged and conducted by Ruud Bos
Produced by Cess Schrama, Photography by Moot Gerretsen 
(from my discography)