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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Peço respeito pelo meu voto

Celso de Lanteuil
Porto, 25/10/2018

Não existe democracia sem riscos. Não existe cidadania sem se correr riscos.

Foi na nossa democracia que se permitiu o aumento do discurso de NÓS e ELES.

Foi também durante a nossa democracia que conseguimos colocar nas ruas as bandeiras do Brasil e descobrir a farra com o dinheiro público, através das revelações trazidas pelo Mensalão, Petrolão e Lava Jato.

Nossa democracia já conseguiu em menos de trinta anos impedir dois presidentes de governar, já prendeu o principal líder popular do país, que permanece preso, assim como vários governadores, um ex chefe da casa civil, ministros, líderes políticos de grande relevância e personalidades da nossa alta esfera de poder.

O risco sempre existirá numa democracia.

O risco do aparelhamento do estado ocorrer por conta de um grupo político e das suas ideologias, ou de uma facção criminosa que tente assumir o poder e assim nossa cidadania venha a esmorecer.

Na nossa democracia, temos assistido os índices de violência se alastrarem sistematicamente, a miséria continuar a crescer, o lixo tomar conta das escolas, as filas nos hospitais darem a volta nos quarteirões, o desemprego de milhões levar profissionais para a informalidade e nosso IDH, aquele que o nosso povo conhece (não falo das estatísticas do IPEA/PNUD Brasil) e constata piorar assustadoramente.

Mas, apesar de tudo isso e de outros desequilíbrios ainda maiores, a democracia no Brasil segue se ajustando e já mostrando que não é apenas "fake news".

Revelando que o brasileiro está mudando e não gosta de ser enganado, e não é mais tão facilmente manobrado, como até recentemente acontecia, antes do advento das mídias instantâneas.

Nossa democracia também não é made in USA, nem socialismo europeu, tão pouco liberalismo inglês, nem a Alemanha dos anos 30 que nos trouxe o nazismo, como muitos formadores de opinião querem nos fazer crer.

Nossa democracia é acima de tudo e de todos, aquela repleta de diversidade, que renovou através do voto, 87% dos nossos senadores! E, colocou no cenário político, cidadãos sem partidos ricos a lhes dar visibilidade.

Nossa democracia renovou na Câmara dos Deputados mais da metade de seus parlamentares.

Ela ainda flutua entre esses dois extremos que chegaram ao segundo turno, isso é uma verdade. O ELE NÃO e OS ELES NÃO. Mas é entre esses dois extremos que ela faz a sua caminhada de amadurecimento, tentando sair da puberdade e se tornar um adulto consciente.

Para aqueles que já se esqueceram, foi na nossa democracia do "tudo pelo social" e do "sem medo de ser feliz" que se organizou a falência da Varig, destruindo um dos maiores, se não o maior, símbolo de eficiência do país no exterior.

Como resultado dessa vergonhosa ação, testemunhamos a saída de cerca 600 pilotos do país, além da direta desorganização do setor aéreo, um calote ao próprio Estado e um prejuízo econômico direto e indireto, que atingiu cerca de cem mil pessoas.

Isso tudo sob a batuta do chefe maior de um governo que sempre se intitulou em defender a classe trabalhadora, na ação direta de seu principal líder, conhecido mundo afora como "Esse é o cara", conforme disse o carismático Obama.

Portanto, a democracia no Brasil segue firme e se por um lado ainda perdemos na qualidade daquilo que se propõe, ou nas práticas políticas dos nossos candidatos, por outro lado temos as bandeiras do Brasil e o povo nas ruas, se manifestando, e dizendo através do voto aquilo que não mais querem para o país.

Entendam isso. Peço respeito ao que sou, por aquilo que acredito e defendo. Peço respeito ao meu voto e ao candidato que o nosso povo vier escolher.

É o mínimo que espero de você que me lê, cidadão que se diz disposto a defender os direitos fundamentais que o sistema democrático possui.

Por fim, a partir de primeiro de janeiro de 2019, a minha vigília continuará sendo aquela que venho tentando aperfeiçoar, desde o movimento das Diretas Já.


quinta-feira, 8 de março de 2018

VERDADES


Cabine de um Boeing 737-200
Primeira aeronave a jato comercial em que fui promovido a Comandante
Varig, Base Rio, 1987
Uma escola de vida
Foto de autor desconhecido

VERDADES
CNAI, Porto, 17/11/2017
Celso de Lanteuil

Existem verdades que se criam na tradição oral
São verdades alimentadas pela memória de um contador de histórias
Memória que passa a ser a memória de um outro e que assim segue caminho
Tornando-se a verdade que surgiu, que conseguiu permanecer
Lembrança que nos chega e fica
A voz de uma história repetida milhares, milhões de vezes

Existe a verdade que nasce da nossa interpretação do mundo
Das nossas experiências, dos nossos valores, da nossa estrutura emocional
Do conhecimento que transportamos vida afora
Da educação que recebemos nos lares, dentro e fora da escola, nas ruas 
Uma voz que possui medo, crenças, valores morais, uma ética própria
Voz gulosa, cheia de revolta. Magoada. Violenta ou calma. Amorosa. Vaidosa…

Existe a verdade que nos chega pela repetição de um poder instituído
Pela força de um tirano, pela máquina do sistema que este alimenta e protege
Jornais, redes de televisão, blogs e blogueiros, jornalistas, artistas, políticos
Juristas, famosos, líderes comunitários, capitalistas, socialistas, comunistas…
Todos tem a sua verdade a defender
Todos tem uma verdade, para por ela lutar

Eu vi. Está tudo muito claro, só não vê quem não quer enxergar! 
Eu entendo bem essa lógica, sei como eles fazem. É tudo uma conspiração
Querem nos iludir. Eles querem nos vender essa ideia 
Nossos problemas começaram quando ele assumiu o Governo 
Aquele sim foi um traidor da nação 
Assim se diz. Assim se acredita

Mas existe também a verdade que tocamos todos os dias
Da falta da água potável para muitos, das doenças que matam diariamente
Dos que morrem na guerra da Síria
E da violência de uma cidade que já foi “maravilhosa”
De se saber que a Terra não é o centro do universo
E que a invenção da roda aproximou as pessoas desse lindo mundo

A verdade que diz: os oceanos não terminam em infinitos abismos
Que aviões voam por propulsão própria 
E Santos Dumont circulou a torre Eiffel em 1906, pela primeira vez no planeta!
São verdades que agrupadas levaram Neil Armstrong a pisar o solo lunar
Verdades que a ciência chama de conhecimento comprovado e adquirido
Fatos e descobertas, de homens e mulheres que se arriscaram a tudo perder

Aqueles que sofreram os piores preconceitos, a perda da liberdade e suas vidas
Contra estes, a desinformação, o ignorar da realidade, a crença cega, a inveja
As teorias que a imaginação em fúria e sem limites criou
A mentira que sempre se repetiu, o egoísmo ameaçado
O medo de se permitir aprender sobre aquilo que sempre nos assustou
Além do pouco interesse que certas realidades despertam

E até mesmo a resistência conveniente de outros tantos
Como dizia o Comandante Walter Pereira Souza 
Para se descobrir o que se oculta num quarto escuro
Nada melhor do que o interruptor que liga a luz
Por isso faço esse registro. Esse grito de alerta! 
O conhecimento é o interruptor que ilumina consciências

É aquilo que nos permite entender melhor a realidade que nos rodeia
Logo, a minha eterna gratidão aos homens e mulheres que jamais se resignaram
Aqueles que não deram as costas ao saber
Mesmo que a custa de suas liberdades fundamentais
Abrindo mão da sua felicidade e segurança, até mesmo das suas próprias vidas

Tudo pelo sonho de aprender e realizar, e melhorar a vida das pessoas

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A MURALHA QUE RESISTE


A MURALHA QUE RESISTE
Portugal, 28/11/2017
Celso de Lanteuil

Tenho acompanhado os desdobramentos sobre o desempenho do goleiro do Clube de Regatas do Flamengo, Alex Muralha, distante do meu Brasil. Comecei quando ainda criança a acompanhar as discussões em torno do nosso então maravilhoso futebol, pelas vozes de Nelson Rodriguez, João Saldanha, Luís Mendes e outros tantos grandes nomes. Bons tempos. Não tenho dúvidas que estou a falar de muita emoção quando o assunto é futebol, mais ainda, quando o time em questão é o Flamengo.

Ninguém também discorda da má fase do Muralha, que fique isso bem claro. Mas há outras coisas que me chamam atenção, quando constato a reação de muitos torcedores e jornalistas ao se referirem aos recentes erros do goleiro. Tenho percebido um excesso de indignação que ultrapassa o razoável da análise crítica. Fico com a impressão que muitos estão atrás de um tipo de vingança, uma revanche oculta, motivada por um inconsciente carregado de medo, revolta, insegurança e sentimento de onipotência, alimentados talvez por esse atual estado de degradação sócio e politico que vivência o nosso povo e país.

Se analisarmos friamente, o Muralha se assemelha ao perfil técnico de muitos outros atletas do Flamengo, assim como daqueles dos principais elencos que assisti atuar em 2017. Precisamos aceitar que o erro é uma contingência da condição humana. Todos erramos. A cada dia que passa, isso acontece com cada um de nós, até que o próximo dia se inicie. E é através desse processo de acerto e erro, que aprendemos a errar menos em nossas vidas. Crucificar um atleta que luta para se reencontrar, não me parece produzir nenhum resultado positivo, especialmente num momento tão crítico em que essas duas competições se encontram.

Muralha está tentando voltar a atuar em nível de alto rendimento e no patamar que o levou a ser recentemente chamado pelo técnico Tite, para fazer um teste na seleção nacional. Suportar as pressões que o Alex Muralha vem enfrentando é para poucos. Pelo seu modo de resistir, podemos concluir que se trata de um brasileiro “lutador”, aquele que bem traduz o jeito rubro negro de ser.

Após um ano com muitas competições e de um extenuante e valente percurso, é hora da torcida, jogadores, técnico, comissão técnica e diretoria do clube, de estarem unidos, pois me parece que seria um grande desperdício ignorar os erros e acertos feitos ao longo desse ano.

Num país como o nosso, em que para se vencer pelo trabalho honesto existe sempre diante de nós um caminhar difícil, doloroso e sofrido, penso que o que muitos destes analistas e “flamenguistas” de coração precisam se empenhar a fazer, é  de melhor tentar compreender as pessoas.

domingo, 1 de outubro de 2017

Mariana 05/11/2015

E a vida segue...
Boca do Lobo, passagem que liga
a praça Edmundo Bitencourt, praça do Bairro Peixoto,
a rua Santa Clara, Copacabana

MARIANA
Bento Gonçalves e Paracatu
05/11/2015
Celso de Lanteuil
26/09/2017


A lama apagou a vida
O descaso enterrou histórias
O preconceito soterrou sobreviventes
A vítima é o "pé de lama"

Uma nova escola foi criada
A exclusão aumentou
E a segregação nunca é reparada
É audiência após audiência

A burocracia é o fantasma
De um desastre que sempre cresce
A resposta ao sofrimento é mais dor
E a reconstrução desse desastre é um pesadelo

A esperança do sobrevivente
Está num eco que avisa
Lá vem o "pé de lama"
Lá vem o "pé de lama"



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

REPÚBLICA DOS BRUZUNDANGAS


REPÚBLICA DOS BRUZUNDANGAS
Celso de Lanteuil
Porto, 3 de abril de 2017


Em homenagem ao amigo Josil Deslandes, que me presenteou com este precioso livro e me apresentou ao inteligente Lima Barreto, autor de Os Bruzundangas (Ed. Garnier, 1988, obra originalmente editada em 1923, por Jacintho Ribeiro  dos Santos).
 
A República dos Bruzundangas é o país das Trapalhadas. Um país cheio de vícios e cacoetes, confuso, afônico, sem rumo, que segue asfixiado e asfixiando pessoas e sonhos.
 
Um país que perde o ar para aqueles senhores que costumam gritar do alto da sacada, como se mandachuva fossem, e para o senhor “conselheiro”, que é o assessor do adjunto do subchefe, aquele que nos põe a correr atrás de um sonho que não conseguimos entender, um qualquer acostumado a dar ordens e sorrir.
 
Mas, se nessa terra falta a boa semente da cidadania, também floresce a mente daninha, que sorrateira cresce criando filhotes aos tantos. São os trapalhões da ordem e do progresso, que de branco, azul, verde e amarelo, nada tem. São os que só dizem amém para fazer o próprio bem e nos deixam os aborrecimentos, o esforço e as dores.
 
A República dos Bruzundangas é amável, dócil e solidária, nas aparências. Lá se diz I love you, Apareça para o jantar, Você faz a diferença, mas na primeira esquina que se dobra, já podemos ouvir Ele não passa de uma fraude, Aquele não vale o sapato que calça!
 
Os Bruzundangas são assim, essa mistura exótica que costuma se alimentar com uma fome de mil dias. Eles devoram tudo o que veem. Batata, habitação, terra, ouro, emoção, água, lágrima, oração e sorriem de barriga cheia, na frente daqueles que sonham com um pedaço de pão.
 
Os Bruzundangas são mesmo autênticos, são da família, da paróquia, unidos sempre na alegria, na celebração e na vitória, e se proliferam de mansinho, sem se fazer notar. São eles que se permitem ser o que são, somente eles. Contudo, quando na derrota do vizinho, ou na dor de um amigo e na perda do emprego de um colega de repartição, bem, aí é uma outra história…
 
 

 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

BREXIT

 
Conceitos básicos para gerenciamento de conflitos
 utilizados por tripulantes da aviação
 

BREXIT
Celso de Lanteuil
Porto, 26 de junho de 2016
 
UK, BREXIT 1
O Reino Unido saiu de si mesmo
 
UK, BREXIT 2
Ele votou: “saia da minha terra”
Ele pensa que assim se qualifica
Que conseguirá um melhor emprego
Que sua promoção vai acontecer

E a aposentadoria será menos perversa
Ele aceita portugueses, poloneses, nigerianos e paquistaneses
Tolera os indianos, os brasileiros e os muçulmanos
Desde que sejam bons de bola…
 
UK, BREXIT 3
Nós não precisamos de ninguém!
Por isso votei “GO AWAY”

UK, BREXIT 4
A globalização não vai chegar aqui
Essa é a nossa ilha!
Por isso votei “FORA”
 
UK, BREXIT 5
Eu votei NÃO!
O Reino Unido perdeu seu melhor aliado
A diversidade foi posta para fora
 
UK, BREXIT 6
Eu votei NÃO!
Jovens, acordem!
O mundo está em todos os cantos…

INTERVENÇÃO CIRÚRGICA

Efeito de uma trovoada na noite anterior 
 
KSA, 24/11/2014
Antigo condomínio da TWA
A natureza da e pega de volta

INTERVENÇÃO CIRÚRGICA
Celso de Lanteuil
Porto, 4 de maio de 2016

Uma cirurgia
Uma cirurgia numa árvore!
Um Pau Brasil
Um Pau Brasil plantado num horto
 
Foi no Horto de Dois Irmãos, no Recife
Ela foi plantada pelo Presidente da República em 1933
O Presidente Getúlio Vargas
E o Pau Brasil estava ferido por fungos
 
E seguia o seu destino de morrer
Técnicos intervieram, abriram o seu tronco
Rasparam, infiltraram
Pulverizaram com fungicidas suas entranhas

Cortaram alguns galhos
E diante de curiosos
Salvaram a árvore
Por mais vinte ou trinta anos…

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

OUVINDO CRIOLO


OUVINDO CRIOLO
Celso de Lanteuil
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 2012
Ouvindo pela primeira vez o CD do Criolo
Livraria da Travessa do Leblon

Sigo onde minha cabeça permite me levar
Mas não me engano
Não existe asfalto quente que não queime!

Toco nos seus lábios, sinto o seu mel
Percebo que posso cair nas suas mãos...
Converso com "cabeçudos". Eles conhecem de emoções

Tenho dúvidas. Eles me dizem que posso esperar
Sim, posso esperar, sei que minha hora chega
Apesar das cercas, dos abismos e medos

Sei, você me disse e eu mesmo já vi e provei
Sim, sei bem o que quer dizer
Mas pense nisso, não importa falar mandarim

Saber pular, cantar, pensar e conseguir fazer bem
Ser professor, doutor ou agricultor
Pois de nada vale o sacrifício, se a autoridade faz vencer o enganador
  
REFRÃO
Sigo onde minha cabeça permite me levar
Mas não me engano
Não existe asfalto quente que não queime!

Se quiser se enganar, defender a mentira, é com você
Mas não me peça pra fingir que não vi
A estrada segura não existe e eu tenho pressa

E aquele mestre em ludibriar está chegando
Ele que vive de mentir
É o boçal que no nosso destino quer mandar

A água da garrafa está esvaziando
Na TV, uma multidão goza de prazer
É a programação que faz todo mundo esquecer

REFRÃO
Sigo onde minha cabeça permite me levar
Mas não me engano
Não existe asfalto quente que não queime!



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Cabeça e Chão

Foto de Ana Geada
Elevador
(trecho do conto)
Celso de Lanteuil

Não é fácil vencer um inimigo desse tamanho, com uma vontade dessas e essa força que se imagina indestrutível. Ela parecia saber disso. O pior ao se enfrentar alguém com essa raiva, e que possui o desejo de esganar, é saber que iremos, mais cedo ou mais tarde, sucumbir lentamente. Como acontece com uma mosca presa à teia que terá todo o líquido de seu corpo sugado pela aranha.
 
- A senhora vai entrar? Quando se é criança, tudo é mais fácil. Os inimigos não são reais como esses que os adultos são obrigados a matar todos os dias.

Esse menino não tem consciência dos perigos que estão à sua volta. Não sabe que está pisando em solo inimigo e que está sendo aos poucos empurrado para o cadafalso.
 
Não desconfia que, em breve, irá viver os horrores de uma morte sofrida e lenta. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

CURVAL


Uma pequena mostra da produção de Curval

CURVAL
Celso de Lanteuil
Casa de Curval, 20/05/2016

Curval é um furacão
Por onde passa desconstrói
Destrói conceitos, reinventa a forma, a cor

Atividade, arte
Pintura, criação de móveis, jardins
Esculturas, fotos, quadros em várias dimensões

Ele cria como respira
Produz sem parar. Inventa ambientes e expressões
Mistura texturas, técnicas e percepções

Nada lhe passa desapercebido
Combina olhar de bicho com arame
Faz rosto em movimento

Nas suas telas a pintura se expande, entra em ebulição
Sai do estado líquido, passa pelo gasoso
Segue em evaporação, que resulta numa outra concepção

Ele é um tsunami das formas e imagens
Mata vira isopor, que renasce como madeira queimada
Sua tinta flutua de tela a tela

Infiltra na pupila
E entre obra e observador, uma conexão se faz
O resultado é um outro paradigma

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MUROS

Photo by Celso, Amsterdam 2013
my smartphone is trying to be political!
 
"Fairphone mission is to bring a fair smartphone to the market
One designed and produced with minimal harm to people and planet"
(Designer Bas Van Abel)

MUROS
Celso de Lanteuil
Porto, 25/11/2016
 
Inspirado no tema Os muros que nos dividem, de José Jorge Letria
Guerra e Paz Editores, 2016
 
Muros, muralhas, linhas divisórias
O muro da China. O muro de Adriano
E a linha imaginária
Os muros das palavras e ideias
 
Muros, linhas divisórias, muralhas
No Atlântico, em Berlim, em Chipre e Evros
Os muros da paz de Belfast
E os muros invisíveis do Brasil
 
Há aqueles das Coreias partidas
Que apesar de irmãs, se sentem inimigas
Onde procriam arames, tijolos e pedras
Areia, concreto, medo, ódio e o preconceito
 
Florescem as muralhas no nosso século
Elas marcam, definem, proíbem e prendem
O muro do México nasceu em 1991
Ainda não parou de crescer
 
As divisões vão sendo demarcadas. Elas estão espalhadas
Uma grande vala em solo espanhol, separa o Marrocos de Ceuta
Muita gente vê. Muita gente não vê!
Pessoas morrem, ou ficam feridas, na carne e na cabeça
 
Não desistem, seguem fugitivas. O muro da Cisjordânia separa parentes
E gente amiga. Ele prende irmãos dentro de um mesmo chão
Para uns esta é a “Cerca da Segurança”
Para outros é o “Muro do Apartheid”
 
O isolamento não para e segue empurrado pela agonia
Que tenta por todos os meios, segurar os que fogem do horror
Então outro muro cresce entre a Sérvia e a Hungria
Tentando a qualquer custo, impedir o desesperado que grita 
 
Novas fronteiras se fecham
Com muros ainda maiores
E o que poderia ser uma casa para outros
Logo se mostra uma jaula para muitos

Esse tipo de muralha, se acha em tudo que é lugar
É muro muito duro, difícil de derrubar
Ele é feito de uma matéria, uma linha invisível, que nasce de um olhar
E cresce enxergando as pessoas, do outro lado de lá


 

 

 

Eu sou Elza


ELZA SOARES
Porto, Casa da Música, 24/11/2016
Celso de Lanteuil
 
O Rei não morreu
Nem o Imperador
O dono da terra, também não
 
Não acabou ainda
O servidor braçal
Até a hora final
 
Nem o político do negócio
Que serve seu protetor
E o lavrador do campo, que capina até a morte
 
O abuso, o medo, o homem que bate na mulher
A mulher que bate no marido, a criança que apanha do velho
Esse que leva uma surra do menino
 
Não acabou ainda
A contramão do poder, do ódio e preconceito
Então, um palco recebe o texto e a encenação
 
Instrumentos em comunhão
Percussão, teclados, bateria, guitarras  
Uma diva nacional, defende sua história com a voz
 
Ela representa muitas lutas
A carne mais barata que canta
A joia rara num mercado negro    
 
Não acabou
A mulher que conquistou sua alforria cantando
Vai fazendo bem o seu papel
 
E canta, e canta, e diz, e canta
E segue abrindo caminhos com a voz
E eu, sempre que posso, aplaudo

 

domingo, 13 de março de 2016

Piano e Violino, escrito no ato...

 
Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto
Casa da Música, Porto, Janeiro de 2015
Espetacular!

UNICEPE, 52 ANOS
Porto, 19/11/2015
Celso de Lanteuil
 
Piano e Violino, escrito no ato…

E o violino foi colocado ao ombro. Ela se posicionou e fez soar o primeiro acorde. Não havia como deixar de se perceber a luminosidade criada ao seu redor. Pode o som iluminar? Esta é a pergunta que me vem ao pensamento. Chega de uma voz que logo se cala, antes mesmo de eu descobrir a resposta, mas é claro!
 
No mais, somente o silêncio, além desse momento.
 
A pianista Olga Vasilyeva inicia seus movimentos e faz progressões que se misturam aos solos da jovem Lia Yeranosyan. Fazem uma parceria de sons, onde suspiros, impressões e diálogos em notas musicais sussurram, criando um sentimento que nos conduz aos bons sonhos.

São emoções que misturam Armênia, Rússia e Portugal, e nos revelam que o mundo é um só, e de todos nós.
 
Me deixo levar por essa magia de sonoridade, onde tempo e vida não se escondem.

Guerra e paz. Vitória e derrota. Tragédia e amor. Luta e dor. Saber e opressão... Liberdade e criação se tocam, e se estranham. Brigam e avançam, morrem e renascem.

Nós seguimos com essas conversas que conspiram e reinventam nossa trajetória. E encontramos a vontade de buscar a vida, e de querer caminhar por esse património comum que a música é capaz de criar. Prosseguimos nesse território onde as concertistas executam seu ofício com coração e técnica, tornando essa noite numa ocasião de esperança. Convictos, acreditamos que esse mundo pode tornar-se uma experiência muito melhor para todos. Basta se ouvir os solos de Lia e os acordes de Olga.   
  

HERÓI TUPINIQUIM

 
Show do Tom Zé no Rio de Janeiro
Teatro do SESC, Junho de 2015
 
HERÓI TUPINIQUIM
Celso de Lanteuil
Rio, 17 de Junho de 2015
 
Pensei em eleger um herói
Herói desse povo da terra Brasil
Fui lá atrás e me lembrei do Ahanguera
Do último dos Tamoios, Tupis e Tupinambás
 
Quem sabe poderia ser Calabar, Joaquim José da Silva Xavier
Zumbi dos Palmares ou Antonio Conselheiro
Ou esse nome qualquer que se perde na multidão
E no anonimato da vida, constrói essa nação
 
Mas tenho que escolher um nome, nessa lista que não termina mais
Poderia ser Padre Cícero, Luiz Gonzaga, o Gonzagão
Aquele que voou como um pássaro, o Alberto Santos Dumont
Quem sabe Manuel Seixas que lutou pela abolição
 
Fico zonzo só de lembrar, na quantidade de gente que há
Que vai atravessando o tempo sem sua marca apagar
Resolvi escolher um nome, para nesses versos celebrar
Sem pretender eleger o melhor, mas sim uma força nacional
 
Vai ser alguém que de inventor tem de tudo
Cuja a cabeça, frequenta o amor, a paz, a alegria de festejar
Porque nem mesmo sei, se é possível se classificar
Alguém como esse tipo, um artista da revolução

Um poeta bicho do mato, um ícone da libertação
Porreta, arretado, simples na sua tradição
De pensador criador, de um mundo com inspiração
Não é Caetano, Millôr, Éder Jofre, nem Maria Ester Bueno
 
Também não é Machado de Assis, João do Pulo, ou Leila Diniz
Poderia ser o Fio Maravilha, Dida, Silva, Gerson, Garrincha, Zico, Zéquinha ou Pavão
Quem sabe o Biriba, Villa Lobos, Barão de Mauá ou Oswaldo Cruz
Talvez um Chico Xavier, o médico Zerbine, a valente Chiquinha Gonzaga
 
Mas meu herói de hoje é do palco, do povo, da arte, da mente
É um “Pirulito da Ciência”, um Bandeirante libertador
Que quando canta transcende, música, filosofia, encanto, revolução
Esse nome é Tom Zé e fico hoje por aqui