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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

TEIA FINA

Tate Gallery, october 2013
The strength and vulnerability bunker
Art by offenders, secure patients and detainees 
Curated by Speech Debelle
Celso de Lanteuil
Porto, 2 de Janeiro de 2019

Ele quer uma casa com telha
Ele quer uma casa com uma telha normal
E uma televisão - diz o garoto para a jornalista
E … uma lona para proteger o pai e ele da chuva
Teia fina que separa o céu do medo

A oração é seu alimento
É canção, é poema, é movimento 

Nada é simples quando morre
Nunca é pouco quando nasce

Algumas pessoas tem tudo nas mãos
Tudo no sorriso, tudo no coração
Sabem dividir e ir ao encontro, e abraçar…
E para estes, uma lona pode as proteger da chuva
Mesmo sendo a teia fina que separa o céu do medo

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

NATAL E BRINQUEDOS QUE MATAM



London, 28/07/2013
Summer Holiday, Olympic Scene
Brinquedos que matam pensamentos idiotas

Celso de Lanteuil
Escrito e lido no Pinguim Café, 18/12/2018


Já passei muitos natais entre espadas, revolveres e metralhadoras

Matei muitos inimigos! Matei e morri muitas vezes

Ouvi gritos perante a morte

Gente a chorar, rastejar e pedir perdão

Bárbaros, gladiadores, índios, nazis, cowboys e marcianos


Com 6, 8 anos, passei a gostar de matar

Foi o dia em que meu irmão fez a vez do morto

Vi na sua morte, um grande desfecho

Um todo gestual que valorizou aquele final


Pois o fim merecido daquele covarde matador

Cuja espada já havia atravessado duas ou três vezes

Meu irmão transformou, num instante magistral


A espada que encontrei na árvore do Pai Natal

Fez sangrar o meu irmão que vi rolar pelo chão 

Com uma dramaticidade que me comoveu

E me convenceu que não era assim tão mal fazer o papel do morto

Ainda mais se atravessado, pela espada prenda do bom velhinho


Porto, 12/10/2013
Feira do Livro, Palácio de Cristal
Atenção: Alguns destes "brinquedos", podem matar a estupidez


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

NATAL 2018

Paris, quarto de hotel, 18/02/2012

Celso de Lanteuil
Escrito e lido na Biblioteca Municipal de Maia
Maia, 15/12/2018 
A sala está fria
O piso é frio
A cadeira gelada
Todos usam casacos, echarpes e mantas
A alegria se faz tímida. É o frio, é o frio …

O Natal se aproxima 
Para muitos, a mesa será farta
Com prendas, risadas, o calor de uma lareira
A casa aquecida, amigos a contar histórias
A cantar e celebrar o viver 

A desejada paz lá estará, por algumas horas que seja…

Outros muitos estarão abraçados ao frio
Não o frio de uma sala sem calefação e de uma cadeira gelada
Do piso que abriga e da sopa fria que alguém tem nas mãos 
Estes tantos outros, estarão entranhados no gelo 
Dedos, nervos, juntas, olhos, pensamentos
Fé, sentimento, sonhos, tormentos, expectativas, cravadas, chão adentro
Presos por um tipo de desinteresse
Distanciamento que muitas vezes renasce e se fortalece no Natal
Natal que ora é crença, por vezes fantasia, tradição, ou o gelo da indiferença


terça-feira, 27 de novembro de 2018

Ideias Distantes Demais

Rua das Oliveiras, Porto, 31/12/2012

Celso
Porto, La Bohéme, 30/09/2018

Um tem os pés descalços e os cabelos raspados
E as calças rasgadas, e as ideias a fervilhar
O outro veste sapatos, penteia os cabelos e se arruma diante do espelho
Do seu jeito, sempre impecável, sempre a se observar

Ambos seguem num lado que quase ninguém quer estar
Quase ninguém lá está, quase ninguém

Um com vontade na fala. O outro com cantigas na mala
Carregam ideias na contramão e avançam que nem um tufão
Falam das grandes questões, de amor e prazer, de poder e corrupção
E gostam de descrever aquilo que está bem oculto e só poucos querem ver

E se aborrecem, e se entristecem, e se revoltam
Porque sabem que contam nas mãos, aqueles que desejam compreender
E não se habituam com a distorção e a mentira das midias  
Que é repetida como um mantra, contada nos jornais, revistas e TVs

Aquela fraude recontada todos os dias, paga para deixar todos sem voz
Confusos entre aquilo que é conhecimento, informação e desinformação
Direitos e obrigação, razão e emoção, verdade e ficção
O resultado dessa combinação, faz nascer um pensamento atrapalhado

Pois o que chama atenção são as ideias distantes demais
Os pés descalços que querem caminhar para além
Os cabelos penteados com precisão e intenção
E um caminhar que é o que diz, como fazem esses dois

Estes, que são o que são
Os que dizem e fazem
Que não são dessa farsa
E nem todo sim, ou todo não

Diante deles, o pensamento caótico fica desmoralizado
As convicções ideológicas são desconstruídas
O ideal perturbado fica enfraquecido
E aquilo que está oculto, aparece

Eles, que não são de esquerda, ou liberais
Nem de centro, tão pouco de direita
São aquilo que são, diariamente, aquilo que realizam 
Seguindo caminho, sempre com a humanidade nas veias e mãos

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Tempo de aprender

Bombas da revolução
Fortaleza de Maputo, 26/10/2011

Celso
Porto, 4 de novembro de 2018

Ainda que o abraço se perca
E mesmo que o sorriso se rompa
E que sua crença não seja a minha
E que sua alegria me entristeça
Ainda assim, teremos que aprender a conversar


domingo, 25 de novembro de 2018

Orlando 2016

Celso de Lanteuil
Porto, 21/11/2018
Para musicar

Texto baseado no espetáculo Your Name Is Orlando
Uma apresentação de Vivacte, Apuro e Café Lusitano
Apresentado pela companhia DYProcess
Concebido por David Desoras
Produção Rui Spranger

Strange feelings
Strange blues
Strange news
Contemporary news

We see old actions. We share old thoughts
(And) contemporary graves are spreading very fast
We touch the silence. The silence is fear
Fear is fire. Fire is imbalance

Strange feelings. Strange blues
Strange news. Contemporary news
Desire is burning. A difference grows
And shake structures. Ancient moral concepts

The pressure increases
God, flags, soccer supporters, politicians
Hate, envy, lack of balance…
Empathy loses ground

Compassion disappears
The affinity is crying
Polarity, contradiction, duality
They go to the octagon

Brothers, parents and friends punch each other
Until hate wins
At the end, Orlando 2016
It is just a faraway feeling

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Peço respeito pelo meu voto

Celso de Lanteuil
Porto, 25/10/2018

Não existe democracia sem riscos. Não existe cidadania sem se correr riscos.

Foi na nossa democracia que se permitiu o aumento do discurso de NÓS e ELES.

Foi também durante a nossa democracia que conseguimos colocar nas ruas as bandeiras do Brasil e descobrir a farra com o dinheiro público, através das revelações trazidas pelo Mensalão, Petrolão e Lava Jato.

Nossa democracia já conseguiu em menos de trinta anos impedir dois presidentes de governar, já prendeu o principal líder popular do país, que permanece preso, assim como vários governadores, um ex chefe da casa civil, ministros, líderes políticos de grande relevância e personalidades da nossa alta esfera de poder.

O risco sempre existirá numa democracia.

O risco do aparelhamento do estado ocorrer por conta de um grupo político e das suas ideologias, ou de uma facção criminosa que tente assumir o poder e assim nossa cidadania venha a esmorecer.

Na nossa democracia, temos assistido os índices de violência se alastrarem sistematicamente, a miséria continuar a crescer, o lixo tomar conta das escolas, as filas nos hospitais darem a volta nos quarteirões, o desemprego de milhões levar profissionais para a informalidade e nosso IDH, aquele que o nosso povo conhece (não falo das estatísticas do IPEA/PNUD Brasil) e constata piorar assustadoramente.

Mas, apesar de tudo isso e de outros desequilíbrios ainda maiores, a democracia no Brasil segue se ajustando e já mostrando que não é apenas "fake news".

Revelando que o brasileiro está mudando e não gosta de ser enganado, e não é mais tão facilmente manobrado, como até recentemente acontecia, antes do advento das mídias instantâneas.

Nossa democracia também não é made in USA, nem socialismo europeu, tão pouco liberalismo inglês, nem a Alemanha dos anos 30 que nos trouxe o nazismo, como muitos formadores de opinião querem nos fazer crer.

Nossa democracia é acima de tudo e de todos, aquela repleta de diversidade, que renovou através do voto, 87% dos nossos senadores! E, colocou no cenário político, cidadãos sem partidos ricos a lhes dar visibilidade.

Nossa democracia renovou na Câmara dos Deputados mais da metade de seus parlamentares.

Ela ainda flutua entre esses dois extremos que chegaram ao segundo turno, isso é uma verdade. O ELE NÃO e OS ELES NÃO. Mas é entre esses dois extremos que ela faz a sua caminhada de amadurecimento, tentando sair da puberdade e se tornar um adulto consciente.

Para aqueles que já se esqueceram, foi na nossa democracia do "tudo pelo social" e do "sem medo de ser feliz" que se organizou a falência da Varig, destruindo um dos maiores, se não o maior, símbolo de eficiência do país no exterior.

Como resultado dessa vergonhosa ação, testemunhamos a saída de cerca 600 pilotos do país, além da direta desorganização do setor aéreo, um calote ao próprio Estado e um prejuízo econômico direto e indireto, que atingiu cerca de cem mil pessoas.

Isso tudo sob a batuta do chefe maior de um governo que sempre se intitulou em defender a classe trabalhadora, na ação direta de seu principal líder, conhecido mundo afora como "Esse é o cara", conforme disse o carismático Obama.

Portanto, a democracia no Brasil segue firme e se por um lado ainda perdemos na qualidade daquilo que se propõe, ou nas práticas políticas dos nossos candidatos, por outro lado temos as bandeiras do Brasil e o povo nas ruas, se manifestando, e dizendo através do voto aquilo que não mais querem para o país.

Entendam isso. Peço respeito ao que sou, por aquilo que acredito e defendo. Peço respeito ao meu voto e ao candidato que o nosso povo vier escolher.

É o mínimo que espero de você que me lê, cidadão que se diz disposto a defender os direitos fundamentais que o sistema democrático possui.

Por fim, a partir de primeiro de janeiro de 2019, a minha vigília continuará sendo aquela que venho tentando aperfeiçoar, desde o movimento das Diretas Já.