TELHA BOA
Celso de
Lanteuil
Rio de Janeiro, 6 de Junho de 2002
Da rua Santa Clara ao Instituto Copacabana e de
volta para casa ...
Caminhando de casa para a escola
De volta para casa, ao lado do amigo de infância
Nunca fazíamos o mesmo caminho
Havia sempre uma outra calçada, uma outra gente
Um outro humor, uma vontade diferente
Uma imaginação que acordava a gente
O caminho para a escola era longo, era perto
O tempo que levávamos até a porta do colégio era exato
O caminho era reta, era inverso, era universo
Algumas vezes quando ia-se, vinha-se
Quando voltávamos, descobríamos uma casa escondida,
escondendo pessoas
Um muro jamais ultrapassado, uma trilha para o morro,
nunca experimentada
O mesmo caminho, como se fosse outro
Até lá chegar, muitas voltas, algumas paradas
Retornávamos outras tantas vezes
Para fazer a bola rolar, encostar numa parede, nos
esconder atrás da árvore
E víamos a bola entre os carros a desaparecer e surgir
novamente
Intacta. Protegida pelos nossos anjos das ruas
Nunca mais será como antes
É o que eu sempre repito
Nunca mais será como o agora, aproveitem!
As crianças não tem pressa para chegar, nem pressa
para voltar
Moram numa casa sempre ao lado, logo ali
Os adultos querem chegar à tempo e acham tudo muito distante
Naquelas idas e vindas, o tempo avançava, parava e
recuava
Parava de andar para trás, avançava um pouco mais e
parava novamente
Assim seguíamos com ele
Todos os dias, um minuto igual a um dia
Um dia igual a uma semana
Que era igual a um mês, que era igual a um ano…
Naqueles trajetos, vi o mundo se revelar
Nas pequenas travessuras de menino, a subir um muro
Nas chapinhas para catar ou chutar, naquela velha bola
Novamente levada nos pés
Escapando e esbarrando na canela de alguém
Seguindo o seu vai e vem, insistindo em
rolar para longe
Uma chuva serve para muitas coisas
Rega a terra, plantas e árvores
Nos lembra do
cheiro da mata
Limpa o chão que pisamos, serve sobretudo para lavar
a vida
Nos dias de chuva, voltando para casa
Eu tomava o meu banho sem reclamar
Debaixo da telha, de uma daquelas casas que não
existem mais
No meio da calçada eu lavava os cabelos, deixava o
uniforme da escola molhar
A bermuda encharcada a pingar
Assim seguia para casa, sem pressa, bem devagar
Vendo os outros a correr tentando a chuva evitar
Ao entrar em casa, eu deixava marcas de água pelo chão
Agradecido por aquela telha, pelo melhor banho de então
E corria para o chuveiro evitando os gritos da minha mãe
Seguindo para um outro banho, sem a mesma graça
O tempo remove muitas impressões, detalhes que nos
fogem a lembrança
O coração a palpitar, um desafio distante de alguém
que nos está a testar e provocar
Mas o banho da telha, daquela casa que não existe
mais
Não me sai jamais da lembrança, nem a água a escorrer
A molhar meus cabelos, o rosto e meu corpo livre sem medos...