segunda-feira, 6 de abril de 2026

 Observações

Cabo Verde, Ilha da Praia, 04/05/2012
Roupa secando ao sol
Foto de celular


Caminhando pela praia
Rio de Janeiro, 13/02/2023
Vinha caminhando pela praia do Flamengo
A noite chegou em simultâneo com a chuva
Que ficou mais intensa
Como é bom ter o corpo a molhar
Quando se tem tanto para lavar...

Piso Irregular
Rio de Janeiro, 23/07/2022
Irregular, piso irregular
Todo o quarteirão em desequilíbrio
Calçadas, urbanização, asfalto, árvores
Pessoas a tropeçar e caminhar aos trancos
Esbarrando umas nas outras 
Encostando ombros, pernas, cotovelos
Ideias, ideais, perturbações, desejos, respiração
Vontades e necessidades, e diferenças
E diferenças...
E a paz. E a paz. E o amor. E o amor
Escondidos, exprimidos na multidão
Querendo florescer
Dia após dia, dia após dia
No meio desse turbilhão
Nessa correria onde muitos 
Seguem pela outra mão
Esbaforidos, sedentos, esfomeados
Alguns até que bem animados
Outros tantos asfixiados
Asfixiando, a gritar em silêncio, teimando
Reincidindo, recomeçando naquele mesmo piso
Piso que afunda sem aviso

A Isca e o Anzol
Rio, 17/02/2023 
Uma sardinha atravessada pelo anzol
Isca virou
O pescador lançou a linha para o mar
Com a isca presa ao anzol
O peso fez afundar a isca
E um cardume arisco se movimentou
Um peixe apressado
Não investigou o que acontecia
E mordeu a sardinha e o anzol
Tudo nesse mundo já foi dito
E muito já se inventou
Há muito mais para se dizer 
E inventar
Na terra vive um homem inquieto
Um outro tipo de pescador
É gente de fala mansa
Complicada de desdizer 
Voz que afirma que a gente vai ser feliz
Ter trabalho, descansar, bons sonhos sonhar
Que vamos fazer acontecer
E o homem inquieto
Acredita sem pestanejar e paga para ver nascer
Só não percebe na sua pressa
Que atrás daquela fala suave
Se esconde um outro tipo de anzol
Que ele, assim como o peixe com fome
Não consegue ver

Gostos
Porto, 06/04/2026
Gostas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Ou preferes o Renato Filipe Cardoso?
Gosto mesmo é de um suculento bife
De um bom banho quente
E de um canto calmo para dormir









segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ELA e ELE 

 Parque das Águas em Resende
Estado do Rio, Outubro de 2025
Foto de celular, arquivo pessoal

Ela e Ele
Celso de Lanteuil
Porto, 8 de maio de 2022 

Falei de amor, dos políticos e que o céu estava lindo
Eu disse que o amor remove tensões
E desfaz as dores de um sentimento ruim

Ela comentou que os políticos não faziam sentido
Que o leite havia acabado e o azeite só tinha um fio
Observei que a primavera é uma vitamina para o espirito

Ela falou que o sabão em pó terminou
E que a roupa da cama estava suja
Eu respondi que o amor é a melhor de todas as causas

Ela me disse estar preocupada com a filha
Cantarolei a minha nova canção
Ela disse que o último bife era para o nosso filho

Eu repeti o refrão, “sem amor a vida não faz caminho”
Ela insistiu, o mercado vai fechar às nove
Peguei a sacola e saí correndo e ela gritou

Não esquece da laranja! Dobrei a esquina
As árvores estavam sorrindo…
Um pássaro me pediu paciência e eu acelerei o passo

O mercado estava cheio
Fila para todos os lados
E os preços mais caros, sempre a subir

Eu cantarolei o refrão e a voz dela surgiu
Me alertando que faltava guardanapo e pão
Voltei para casa tentando concluir a canção

Outros Eus (cdelanteuil.blogspot.com)
Celso DL (Youtube)
Celso_dl (Instagram)


BOZES BOADORAS
com vários amigos que se reencontram 
Não percam dia 15/02/2026
 
Biblioteca Almeida Garrett 
Porto, Portugal
Um pouco de Humor no Amor
Estarei lá com Ela e Ele




quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um ano por se descobrir


Piscina natural de Maringá 
Visconde de Mauá
Estado do Rio de Janeiro, abril de 2024


Entre bilhões de galáxias

(31/12/2025)

Entre bilhões 

de galáxias

Numa específica 

galáxia 

No mesmo planeta 

Terra

Em um grupo 

de poesia!

Abraçados por belas palavras

Cada um de vocês 

E eu

Que já temos tanto...

Que tal 2026?

Ano amigo

Seja bem-vindo! 

Para cada um de vocês 

Ano irmã, irmão

Ano professor

Para curar qualquer dor



segunda-feira, 13 de outubro de 2025

 Um Rio em Cores

Texto feito para o Sarau Poesia Andarilha
Celebrando a primavera no Rio de Janeiro, 03/09/2025

Lamego, Alto Douro Vinhateiro
Outono no Norte de Portugal
(02/11/2025)

Um Rio em Cores

A cidade acordou em cores
Calçadas abraçadas pelas flores
Namorados a sorrir e cantar
Afetos soltos no ar;

Mutantes a passar
Como fazem as ondas no mar
Num corre-corre de corações 
Querendo se libertar;

Passos que parecem bailar
As árvores dizem não ao asfalto
Elas crescem para o céu
Trazem suas folhas e frutos;

Flores que colorem as pessoas
Um jardim suspenso se faz
Manacás, quaresmeiras roxas
Ipês roxos e amarelos

O Flamboyant e seu vermelho-alaranjado
Trepadeiras tropicais, cachos da Lágrima-de-Cristo
Hibiscos, Buganvílias
Flores da Mata Atlântica;

Orquídeas a inventar o paraíso
Bromélias colorindo caminhos
Azáleas que invadem sentimentos 
Roxas, rosas, brancas e vermelhas;

Uma estação em cor e variados aromas
Contaminam quem por aqui passa
E fazem o medo sorrir
E fazem a dor colorir


Lá no Meio da Estrada uma Criança
Interpretação de uma fotografia de multidão
Estação das Letras, grupo de estudos supervisionado por Ninfa Parreiras
23/01/2003 

Crianças jogam bola na Ilha da Praia
Cabo Verde, 04/05/2012 

Eles foram chegando
Davam as mãos
E um a um faziam a roda rodar
E cantavam cantigas

Escravos de Jó…
É noite de São João
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Cai cai balão, cai cai balão

A diversão ganhava coro
Novas vozes, novos olhares
Atentos, curiosos
A correr, a saltar 

Rostos pequenos, olhares bem vivos
Corpos a pular, gritos atrás de uma pipa
Crianças afoitas a seguir a bolinha de sabão
A pescaria, o tiro ao alvo, a corrida do saco 

Um balanço a baloiçar
Uma confusão de gente que de tanto brincar
Não viram a barba crescer
Os cabelos embranquecer

Não perceberam os seios ganharem volume
A voz engrossar  
A responsabilidade chegar
A vida se transformar em obrigação 

Lá no fundo, bem no fundo
A imaginação fazia o tempo parar
A criançada seguia a acriançar 
O adolescente a enamorar-se
 
Na profundeza de cada um, o tempo da meninice
Se brincava de ser adulto responsável, sério
E veio o tempo de dar as mãos e encostar os rostos  
De pisar num chão que não era chão, era mar 

Onde um violão se transformava numa paixão
Aquele amor distante, inatingível, abraçado
Romance de cinema
Sonho de sonhador

Lá no meio da estrada, o mundo era um coração
O desejo ingênuo, a imaginação
As primeiras festas, o primeiro beijo
Um corpo a deixar o solo que nem faz um balão

Leve, solto, sem direção 
Um sorriso dono de um mundo
Uma fantasia de vida
Onde vivia e vive uma criança


terça-feira, 9 de setembro de 2025

Dia dos pais 
Sarau Poesia Andarilha (Virtual) 
9 de agosto de 2025  

Foto de arquivo tirada de celular
Papai aos 87 anos busca o ângulo perfeito
Casa da Música, Porto, maio de 2010

Falando do meu pai
Resende, 01/08/2025

Existem, existiram pais de todos os tipos e não cabe a mim julgá-los pela vida que levaram, nem pelo que foram como pais. Posso falar do pai que eu tive, do que vi, vivi, senti, daquilo que dele aprendi e recebi. Sei que é bem diferente amor de mãe e amor de pai, ainda mais quando se é latino, aquele cuja emoção ganha dimensão diante um olhar ou aperto de mão.

Meu pai foi chão, foi mar, foi ar! Trouxe um mundo de vivências dentro dele que eu cresci descobrindo cada canto na medida em que a vida via nascer. Na base aérea de Santos as primeiras memórias, os aviões no hangar, os passeios de "Jeep", a praia das tartarugas, o primeiro contato com o mar, o cheiro de gasolina dos aviões, as nuvens e hélices em movimento que me conduziram para outros destinos e que acabaram por alterar permanentemente as minhas referências, minha capacidade de imaginar, a forma de pensar e sentir o viver. 

Minha infância ao lado de papai e do meu irmão, ficaram associadas a diversão, a passeios, as muitas idas na praia de Copacabana, ao futebol na areia e na sede de remo do Flamengo, nas regulares idas ao Maracanã e pelo convívio com a família, também habitual.

Papai gostava de música. Escutávamos em casa principalmente os discos de vinil do Luiz Gonzaga, Ataulfo Alves, Miltinho, Elza Soares, das orquestras Tabajara, do Benny Goodman, das trilhas sonoras clássicas do cinema americano, das canções românticas francesas e italianas que costumava tocar para os nossos avós nos almoços de final de semana, Henry nascido na França e Duilio que era italiano. Mas, foram nos desfiles das escolas de samba na avenida Rio Branco e nos bailes de carnaval dos clubes do Flamengo e da Aeronáutica, que papai nos apresentou para as tradicionais baterias das escolas de samba, as orquestras dos bailes, seus músicos e respectivos instrumentos, e ao rico repertório das inesquecíveis marchas carnavalescas.

Papai estava em nós, entrava dentro de nós num desbravar nem sempre fácil de lidar, pois tudo nele era intenso, com muitas reflexões, questionamentos, ensinamentos, alegria constante, muito afeto e sedução. Sua curiosidade em aprender, a vocação para ensinar e seu entusiasmo pela vida eram contagiantes, e assim seguiu ao longo dos tempos atuando em várias áreas. Durante o meu período mais rebelde da adolescência, ele demonstrou muita compreensão com as minhas inquietações, vontade de fazer o mundo e rebeldia, aproveitando cada momento em família para nos manter próximos. 

Quando estava presente era inteiro e apoiava minhas experiências acadêmicas e esportivas. Ao optar por seguir a profissão que ele havia sido pioneiro na Força Aérea Brasileira, compartilhou seu conhecimento de aviador comigo e me ajudou a amadurecer, convívio esse que me trouxe muito aprendizado teórico e prático. Sim, papai desde quando éramos bebês, nos colocou nas cabines dos PT19, NA-T6, Regente Elo, Jatinho Paris e DC3, o icónico C-47 e foi isso que fez meu irmão e eu gostarmos de brincar de pilotos quando crianças.

Papai foi muitos em uma única pessoa e alguns desses personagens ficaram dentro de mim e ainda hoje me sacodem o corpo e me levam a voar ao seu lado para distantes destinos, escutar animadas canções, assistir os emocionantes jogos do Flamengo, estar próximo dessa gente querida que me viu crescer e tanto me amou e amei, emoções que ainda hoje me levam a cantar ao seu lado, "Tem boi na linha, tem, tem, tem. Tem boi na linha Catarina vai no trem"; "Eu vou pra Maracangalha eu vou. Eu vou de chapéu de palha eu vou. Se a Anália não quiser ir eu vou só..."; "O Rei Zulu, o Rei Zulu, não paga casa nem comida e anda nu..."; "Procurei, procurei, de lanterna na mão, procurei procurei e achei, a dona do meu coração. E agora, e agora, eu vou jogar a minha lanterna fora"; "Quando oiei a terra adentro, qual fogueira de São João"... e tantas outras canções que ainda fazem eco dentro de mim e do meu irmão.

Gostávamos de ver papai analisar o comportamento das pessoas de forma positiva e cômica, com aquele seu peculiar olhar crítico, tecer comentários sobre os personagens da politica nacional e do cotidiano, mas vê-lo contar piadas e casos da aviação era um momento de grande entretenimento para nós. Com o passar dos anos, mamãe começou a pegar no pé dele por conta das piadas que ela escutava há décadas, compreensível, piadas que hoje eu daria tudo que tenho para ouvi-lo contá-las novamente.

Ainda hoje, volta e meia escuto sua voz a cantarolar uma canção do rei do baião, de Bing Crosby, Nat King Cole ou Ataulfo Alves, hábito que tinha enquanto tomava seu banho ou fazia a barba. Em outras ocasiões vejo ele diante de mim em tom de espanto a me dizer: “Celsinho, meu filho, você não imagina como essa cidade está. Perdeu-se o respeito entre as pessoas por todos os lados que se vá!” Papai foi homem de buscar soluções, de resolver problemas, de ajudar sem nada em troca pedir, de abraçar negros, índios e nordestinos, e pelo que foi e realizou, vejo ele por todos os lados com seu dinamismo e vontade de contribuir, de socorrer as pessoas, as desconhecidas e aquelas muito próximas. Sobre seus defeitos, quem não os têm?


Aos 87 anos... Falar o quê?


sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Arraiá Poético da Poesia Andarilha


Artista @SR.MAYA7 (15/09/2024) 
traz sua arte para o cotidiano das pessoas
Boca do Lobo, galeria que conecta a rua Santa Clara com a praça Edmundo Bitencourt, mais conhecida como praça do Bairro Peixoto, localidades onde passei grande parte dos meus mágicos anos entre a infância e primeiros anos da fase adulta

Arraiá Poético da Poesia Andarilha
Leblon, 08/06/2025

Uma gripe me abraçou esses dias e apertou meu corpo até imobilizar meus movimentos. Doíam ossos, músculos, me escapava a respiração, a vista escurecia, as ideias adormeciam e o corpo não conseguia sair do colchão. No dia seguinte, me sentindo melhor, fui ao “tubo” ver o Arraiá Poético da Poesia Andarilha, tentando recuperar a energia perdida, reencontrar as vozes andarilhas e saber das novidades; dos quitutes, das prendas, das tradições, das músicas festivas, da poesia em formato de saia rendada, do chapéu de palha, das rezas para Santo Antônio; e ver como esse encontro virtual celebrou a festa de São João. 

E não é que a maravilha desses andarilhos que vivem contentes abraçados na escrita, nessa construção contínua que faz tradição viver, e revivem cantiga, e dançam quadrilha mesmo se diante de uma tela, uma gente que solta balão na imaginação, nos fazendo pular fogueira em pensamento e voltar no tempo com a mente e o coração. 

Pessoas que gostam de bordar e colorir as praças da cidade com barraquinhas e bandeirinhas, de fazer quentão, canjica e caldinho de feijão. E, brincar de pescaria, corrida no saco, de malhar o Judas, quebrar moringa com uma venda nos olhos e morder maçã pendurada pelo barbante! 

Pois não é que diante da tela do telefone coloquei minha fantasia e encontrei nas vozes andarilhas a magia das palavras que criam sonhos, celebram o viver e fazem o virtual virar emoção em forma de poesia, canto, dança, ternura e melodia. Pessoal bom esse que sabem fazer a vida acontecer mesmo quando estão bem distantes da gente.