segunda-feira, 5 de outubro de 2026

PERSPECTIVAS e gostos distintos

 

Isto de Ser Português

Coletânea Literária

Editora Cordel D'Prata

Cujo texto abaixo foi publicado na mesma

Lançamento na Feira do Livro de Lisboa, 10/06/2026


PERSPECTIVAS e gostos distintos
Celso de Lanteuil, Porto, 07/04/2026

Tens o perfil de quem gosta de ler Daniel Maia-Pinto Rodrigues
E Renato Filipe Cardoso, “Estamina para a máquina-de-lavar dióspiros” (1)
Uma boa escolha para se lavar inquietações
E a fruta dos deuses é a sua cara. Acertei?
Eu gosto mesmo é de um suculento bife, de um bom banho quente
E de um sítio calmo para dormir, responde o outro

Se calhar preferes a poesia da Felipa Leal (2) para aprender a dividir o frango?
Ou quem sabe se identifique com a Ligia Silva (3)
Para compreender a importância do abismo e a profundidade do amor!
Me apetece mais um polvo a lagareiro regado com muito azeite e batatas ao murro
Terminar com uma porção de natas do céu, ou uma baba de camelo do Melhor Sabor
E, para completar, uma boa bagaceira. Isso sim é o amor…

Pelo andar da nossa conversa vejo que você gosta mesmo é de comer
Tomar um banho quente e dormir, e talvez esteja evitando olhar para o seu interior 
Quiçá lhe falte refletir “Ao Espelho” (4)
Ler o Luís Ferreira, mas pensando bem, vai servi-lhe melhor
“O Gajo, O Bar e o Serviço”, do mesmo autor (5)
“Já que um incêndio arde dentro de você” e “Um Fogo Alimenta a Fome” (6)

Pelo visto você está sempre a ler, sem tempo para o lazer, para namorar
E frequentar uma confeitaria. És um gajo com certa idade e sem tempo para um café
Nem para apreciar uma garrafa do Douro, ou de um verde do Minho
Na vida, o que me apetece é uma boa prosa entre amigos, a picar uns pimentos Padrón
Umas sardinhas e pitingas feitas na brasa, e umas pataniscas
Além de saborear um pão de ló com queijo da serra, para degustar

Vejo aqui uma grande confusão, parece ser um caso de ideologia
Talvez você necessite de um texto aguerrido
Uma voz indignada, voz de denúncia!
A força de um poema da Francisca Camelo (7), o “Poema ao Assédio”
É o apetite que lhe falta para o convencer
De que comer livros por vezes é preciso

Estamos é bem divididos e a disputar um conceito
Qual será o mais poderoso alimento?
Aquele que mata a fome e nos dá força e prazer…
Ou aquele que alimenta as entranhas emocionais do ser? 
Sim, mas claro, como não pensei na Olívia Clara Pena
É disso que precisas conhecer, “Amor e Outros Desencontros” (8)

O outro diz: O que realmente me comove é uma sopa de peixe com coentro
Um carapau de entrada e a seguir um bacalhau na broa
Quiçá mexilhões ao vinagrete e uma espetada de lula
E para finalizar, um bolo de feijão, ou se calhar, um docinho de chila em fios
Mas veja lá, também me resolvo com uma tosta de queijo e fiambre
E uma meia de leite… 

És mesmo um fundamentalista! Por tipos como você é que o mundo vive em guerras
Largue essa teimosia que não o levará a lugar algum  
E leia “Fio Terra” do Ismael Calliano (9)
Pois como disse o poeta, “Em Todas as Conversas Adiamos o Amor”
O outro respira, pensa e responde: O que aprendi da vida é que muitas vezes
Com a conversa adiamos um almoço …

Você é um caso perdido! Encerrarei nossa prosa filosófica
Relendo “A Luz Demora” de Olga Santos (10)
Que chegará para você como uma “promessa de árvores, filhos e livros”
E para que saia dessa dependência que a gula produz
Vou-lhe sugerir uma volta na “Montanha-Russa” que o Rui Spranger (11) criou
Para melhor sentir os afectos, os passos, as amizades e o tabaco, os vícios e labirintos 

Ó pá! E eu te indicarei um livro de culinária
Sim, também leio, sou um tipo flexível e aprenderás
Com as receitas de uma francesinha vegana e do notório pastel de Belém
Além dos indescritíveis ovos mole de Aveiro e do pudim abade de priscos
Chega, chega, chega. Já estou satisfeito
Feliz por saber que andas a ler um guia de boas receitas 

E mesmo se fosse uma bula de remédio, ou um tutorial de “air fryer”
Eu te daria umas iguarias tiradas de “Um dia tudo isto será meu”
Do João Habitualmente (12), para você ler “Apocalipse”
“O Pensamento Operário” e “Agradecemos”…
Uma pausa que parece não ter fim. Então, o outro conclui:
Nisso nós concordamos, mas não exatamente nesta ordem

(1) “Estamina para a máquina-de-lavar dióspiros”
Ed. Texto Sentido. Coleção Apocalírica # 3 
(2) “Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano”
Publicado por Assírio & Alvim. Porto Ed. 
(3) “Fala com Ela”. Mosaico de Palavras Ed. Lda
(4) “Ao Espelho”. Apuro Edições
(5) “O Gajo, O Bar e o Serviço”. Apuro Edições 
(6) Um Fogo Alimenta a Fome”, página 41, Apuro Edições
(7) “Cassiopeia”. Apuro Edições
(8) “Amor e Outros Desencontros”. Ed. Cordel D’Prata
(9/10) Helvetia Éditions
(11) Ilustração interior de Maria Burachenko, Ed. Texto Sentido/Apuro
(12) Porto Editora

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

PENSAmentos Breves e INÉDITOS 

Na vida, como num voo, nem sempre o caminho está livre 
Foto tirada de celular, radar de bordo de um Boeing 737-NG
Manchas vermelhas indicam chuva forte e turbulência
As cores magenta (rosa intenso) revelam condições extremas
Formação de granizo, turbulência severa
E correntes de ar violentas, com ascendentes e descendentes intensas
Aeroporto de LBSF (Sófia, Bulgária), cerca de 30nm à esquerda da nossa proa
(06/06/2013)


PENSAmentos Breves e INÉDITOS

Segui para tão longe que nem mais me vejo;

Perspectiva: O cansaço é o vigor com sono (18/06/2026);

Trazia uma tonelada de pensamentos
Enquanto rangia os dentes (11/07/2026)

Carregava pedras nos bolsos
Gostava de tapar os buracos das calçadas;

Uma equação sem resposta
Para eles, a função de levá-los adiante;

Queria dizer
Ela não queria escutar
Ele disse
Ela não gostou;

Um sapato apertado
Apertou suas intenções;

Ela,
Grávida de sonhos
Ele,
Um aborto nas ações;

Aprisionar, dar vida ao pássaro, ou armar encrenca?
Se andas muito sexy
Um vulcão sexual
Use cuecas apertadas
Ou liberte a inquietação
E assuma as consequências...

Te observei em profundidade
Fui ao chão;

O visual de uma pessoa
É um mundo
Seu interior
Uma galáxia;

Usava uma sandália tão justa
Que asfixiou suas emoções;

Somos aqueles que matamos e salvamos;

Se eu fosse mais de um
Eu seria meus pais
Meu irmão
Alguns grandes amigos
E certos ídolos
Quanta gente cabe dentro de mim!



segunda-feira, 6 de abril de 2026

 Observações

Cabo Verde, Ilha da Praia, 04/05/2012
Roupa secando ao sol
Foto de celular


Caminhando pela praia
Rio de Janeiro, 13/02/2023
Vinha caminhando pela praia do Flamengo
A noite chegou em simultâneo com a chuva
Que ficou mais intensa
Como é bom ter o corpo a molhar
Quando se tem tanto para lavar...

Piso Irregular
Rio de Janeiro, 23/07/2022
Irregular, piso irregular
Todo o quarteirão em desequilíbrio
Calçadas, urbanização, asfalto, árvores
Pessoas a tropeçar e caminhar aos trancos
Esbarrando umas nas outras 
Encostando ombros, pernas, cotovelos
Ideias, ideais, perturbações, desejos, respiração
Vontades e necessidades, e diferenças
E diferenças...
E a paz. E a paz. E o amor. E o amor
Escondidos, exprimidos na multidão
Querendo florescer
Dia após dia, dia após dia
No meio desse turbilhão
Nessa correria onde muitos 
Seguem pela outra mão
Esbaforidos, sedentos, esfomeados
Alguns até que bem animados
Outros tantos asfixiados
Asfixiando, a gritar em silêncio, teimando
Reincidindo, recomeçando naquele mesmo piso
Piso que afunda sem aviso

A Isca e o Anzol
Rio, 17/02/2023 
Uma sardinha atravessada pelo anzol
Isca virou
O pescador lançou a linha para o mar
Com a isca presa ao anzol
O peso fez afundar a isca
E um cardume arisco se movimentou
Um peixe apressado
Não investigou o que acontecia
E mordeu a sardinha e o anzol
Tudo nesse mundo já foi dito
E muito já se inventou
Há muito mais para se dizer 
E inventar
Na terra vive um homem inquieto
Um outro tipo de pescador
É gente de fala mansa
Complicada de desdizer 
Voz que afirma que a gente vai ser feliz
Ter trabalho, descansar, bons sonhos sonhar
Que vamos fazer acontecer
E o homem inquieto
Acredita sem pestanejar e paga para ver nascer
Só não percebe na sua pressa
Que atrás daquela fala suave
Se esconde um outro tipo de anzol
Que ele, assim como o peixe com fome
Não consegue ver

Gostos
Porto, 06/04/2026
Gostas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Ou preferes o Renato Filipe Cardoso?
Gosto mesmo é de um suculento bife
De um bom banho quente
E de um canto calmo para dormir









segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ELA e ELE 

 Parque das Águas em Resende
Estado do Rio, Outubro de 2025
Foto de celular, arquivo pessoal

Ela e Ele
Celso de Lanteuil
Porto, 8 de maio de 2022 

Falei de amor, dos políticos e que o céu estava lindo
Eu disse que o amor remove tensões
E desfaz as dores de um sentimento ruim

Ela comentou que os políticos não faziam sentido
Que o leite havia acabado e o azeite só tinha um fio
Observei que a primavera é uma vitamina para o espirito

Ela falou que o sabão em pó terminou
E que a roupa da cama estava suja
Eu respondi que o amor é a melhor de todas as causas

Ela me disse estar preocupada com a filha
Cantarolei a minha nova canção
Ela disse que o último bife era para o nosso filho

Eu repeti o refrão, “sem amor a vida não faz caminho”
Ela insistiu, o mercado vai fechar às nove
Peguei a sacola e saí correndo e ela gritou

Não esquece da laranja! Dobrei a esquina
As árvores estavam sorrindo…
Um pássaro me pediu paciência e eu acelerei o passo

O mercado estava cheio
Fila para todos os lados
E os preços mais caros, sempre a subir

Eu cantarolei o refrão e a voz dela surgiu
Me alertando que faltava guardanapo e pão
Voltei para casa tentando concluir a canção

Outros Eus (cdelanteuil.blogspot.com)
Celso DL (Youtube)
Celso_dl (Instagram)


BOZES BOADORAS
com vários amigos que se reencontram 
Não percam dia 15/02/2026
 
Biblioteca Almeida Garrett 
Porto, Portugal
Um pouco de Humor no Amor
Estarei lá com Ela e Ele




quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um ano por se descobrir

Piscina natural de Maringá 
Visconde de Mauá
Estado do Rio de Janeiro, abril de 2024


Entre bilhões de galáxias
(31/12/2025)

Entre bilhões 
De galáxias
Numa específica galáxia 

No mesmo planeta 
Terra
Em um grupo de poesia!

Abraçados
Por belas palavras
Cada um de vocês 

E eu...
Que já temos tanto
Que tal 2026?

Ano amigo
Seja bem-vindo! 
Para cada um de vocês 

Ano irmã, irmão
Ano professor
Para curar qualquer dor



segunda-feira, 13 de outubro de 2025

 Um Rio em Cores

Texto feito para o Sarau Poesia Andarilha
Celebrando a primavera no Rio de Janeiro, 03/09/2025

Lamego, Alto Douro Vinhateiro
Outono no Norte de Portugal
(02/11/2025)

Um Rio em Cores

A cidade acordou em cores
Calçadas abraçadas pelas flores
Namorados a sorrir e cantar
Afetos soltos no ar;

Mutantes a passar
Como fazem as ondas no mar
Num corre-corre de corações 
Querendo se libertar;

Passos que parecem bailar
Árvores que dizem não ao asfalto
Elas crescem para o céu
E trazem suas folhas e frutos;

Flores que colorem as pessoas
Um jardim suspenso se faz
Manacás, quaresmeiras roxas
Ipês roxos e amarelos

O Flamboyant e seu vermelho-alaranjado
Trepadeiras tropicais, cachos da Lágrima-de-Cristo
Hibiscos, Buganvílias
Flores da Mata Atlântica;

Orquídeas a inventar o paraíso
Bromélias colorindo caminhos
Azáleas que invadem sentimentos 
Roxas, rosas, brancas e vermelhas;

Uma estação em cor e variados aromas
Contaminam quem por aqui passa
E fazem o medo sorrir
E fazem a dor colorir


Lá no Meio da Estrada uma Criança
Interpretação de uma fotografia de multidão
Estação das Letras, grupo de estudos supervisionado por Ninfa Parreiras
23/01/2003 

Crianças jogam bola na Ilha da Praia
Cabo Verde, 04/05/2012 

Eles foram chegando
Davam as mãos
E um a um faziam a roda rodar
E cantavam cantigas

Escravos de Jó…
É noite de São João
Carneirinho, carneirão, neirão, neirão
Cai cai balão, cai cai balão

A diversão ganhava coro
Novas vozes, novos olhares
Atentos, curiosos
A correr, a saltar 

Rostos pequenos, olhares bem vivos
Corpos a pular, gritos atrás de uma pipa
Crianças afoitas a seguir a bolinha de sabão
A pescaria, o tiro ao alvo, a corrida do saco 

Um balanço a baloiçar
Uma confusão de gente que de tanto brincar
Não viram a barba crescer
Os cabelos embranquecer

Não perceberam os seios ganharem volume
A voz engrossar  
A responsabilidade chegar
A vida se transformar em obrigação 

Lá no fundo, bem no fundo
A imaginação fazia o tempo parar
A criançada seguia a acriançar 
O adolescente a enamorar-se
 
Na profundeza de cada um, o tempo da meninice
Se brincava de ser adulto responsável, sério
E veio o tempo de dar as mãos e encostar os rostos  
De pisar num chão que não era chão, era mar 

Onde um violão se transformava numa paixão
Aquele amor distante, inatingível, abraçado
Romance de cinema
Sonho de sonhador

Lá no meio da estrada, o mundo era um coração
O desejo ingênuo, a imaginação
As primeiras festas, o primeiro beijo
Um corpo a deixar o solo que nem faz um balão

Leve, solto, sem direção 
Um sorriso dono de um mundo
Uma fantasia de vida
Onde vivia e vive uma criança