quinta-feira, 8 de julho de 2021

Uma temporada no inferno

Por Arthur Rimbaud (1854-1891)
Lido em Lagos, 8 de Março de 2013
Comentários sobre o livro, escrito na contracapa
Celso DL


Eis aqui, muito bem descrito, uma desordem profunda, de um espírito cheio de dor, de força, de sonhos e amor. Eis aqui em palavras, sofridas porém bem escritas, as rimas que falam de desespero, perdas e horror;

Decididamente, encontramos nestes poemas de Rimbaud, aquela angústia profunda de quem está afastado do mundo, enlouquecido por tantas ilusões, aquele que nunca encontra a paz; 

Tenho aqui em minhas mãos, não apenas o resultado de um poético delírio, mas também a tradução mais pura da alma de homens descalços e nus, violentos, amargos, traidores vis, armados até os corações;

Aqui, neste texto realista e revelador, temos os porcos, os devassos, as sombras de um ser que jamais chegará a acontecer. Temos as nossas piores falhas e nossos sofridos preconceitos;

Estão todos aqui enumerados, para que assim não possamos jamais esquecer dos tipos que somos e daquilo que podemos ser.

 

 


segunda-feira, 14 de junho de 2021


 Porto, 17/11/2016

Celso de Lanteuil

Notas após ter lido O Meu Século, de Gunter Grass

Não desistam jamais. A humanidade vale a pena. A vida no planeta é sagrada. O que na Terra nasce é filho e como filho tem que ser cuidado. Não esqueçam da nossa história, da caminhada que já percorremos, dos erros do passado e do sofrimento que vivemos. Nem das piores derrotas, dos absurdos cometidos, da nossa pior estupidez!

Lembrem-se das importantes conquistas, dos nossos grandes inventos, daqueles melhores momentos que nos fizeram descobrir outros valores e nos permitiram chegar até aqui, apesar dos extremos desequilíbrios que ainda persistem e causam tanta dor.


sábado, 9 de janeiro de 2021

 

TELHA BOA
Celso de Lanteuil
Rio de Janeiro, 6 de Junho de 2002
Da rua Santa Clara ao Instituto Copacabana e de volta para casa ...

Caminhando de casa para a escola
De volta para casa, ao lado do amigo de infância
Nunca fazíamos o mesmo caminho
Havia sempre uma outra calçada, uma outra gente

Um outro humor, uma vontade diferente
Uma imaginação que acordava a gente
O caminho para a escola era longo, era perto
O tempo que levávamos até a porta do colégio era exato e eterno

O caminho era reta, era inverso, era universo
Algumas vezes quando ia-se, vinha-se
Quando voltávamos, descobríamos uma casa escondida, escondendo pessoas
Um muro jamais ultrapassado, uma trilha para o morro, nunca experimentada

O mesmo caminho, como se fosse outro 
Até lá chegar, muitas voltas, algumas paradas
Retornávamos outras tantas vezes
Para fazer a bola rolar, encostar numa parede, nos esconder atrás de uma árvore

E víamos a bola entre os carros desaparecer e surgir novamente intacta                Protegida pelos nossos anjos das ruas   Nunca mais será como antes                            É o que eu sempre repito

Nunca mais será como o agora, aproveitem!
As crianças não tem pressa para chegar, nem pressa para voltar
Moram numa casa sempre ao lado, logo ali
Os adultos querem chegar à tempo e acham tudo muito distante

Naquelas idas e vindas, o tempo avançava Parava e recuava
Seguindo como a andar para trás                 Um pouco mais e parava novamente
Assim seguíamos com ele
Todos os dias, um minuto igual a um dia

Um dia igual a uma semana
Que era igual a um mês, que era igual a um ano…
Naqueles trajetos, vi o mundo se revelar
Nas pequenas travessuras de menino, a subir um muro, a rolar pelo chão 

Nas chapinhas para catar ou chutar      Aquela velha bola...
Novamente levada nos pés
Escapando e esbarrando na canela de alguém
Seguindo o seu vai e vem, insistindo em rolar para longe

Uma chuva serve para muitas coisas
Rega a terra, plantas e árvores
Nos lembra do cheiro da mata
Limpa o chão que pisamos                        Serve sobretudo para lavar a vida

Nos dias de chuva, voltando para casa
Eu tomava o meu banho sem reclamar
Debaixo da telha, de uma daquelas casas que não existem mais
No meio da calçada eu lavava os cabelos, deixava o uniforme da escola molhar

A bermuda encharcada a pingar
Assim seguia para casa, sem pressa, bem devagar
Vendo os outros a correr tentando a chuva evitar
Ao entrar em casa, eu deixava marcas de água pelo chão  

Agradecido por aquela telha, pelo melhor banho de então 
Eu corria para o chuveiro evitando os gritos da minha mãe
Seguindo para um outro banho sem a mesma graça 
O tempo remove muitas impressões  Detalhes que nos fogem a lembrança

O coração a palpitar, um desafio distante de alguém que está a nos testar e provocar
Mas o banho da telha, daquela casa que não existe mais
Não me sai jamais da lembrança, nem a água a escorrer
A molhar meus cabelos, o rosto e meu corpo livre, sem medos...

 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

IT'S ANOTHER DAY


Hi friends, next friday the 16th, I'll be sharing a new song, It's another day! 
I hope to see you around.
Cheers, (After that, the audio and images will be continuously available for you)

Salve amigos, na próxima sexta-feira estarei compartilhando uma nova composição de minha autoria.
Conto com a força de vocês.
Até breve,
Celso DL (após o lançamento a gravação estará permanentemente disponível para visualização)

O Senhor dos Cordéis

Museu do Design e da Moda de Lisboa
Foto de celular, Setembro de 2012


O SENHOR DOS CORDÉIS
Inspirado pela poesia de Thomas Bakk
Celso de Lanteuil
Porto, 25 de agosto de 2020
 

Ele não é o senhor dos Anéis, é O Senhor dos Cordéis!
Aquele que já viu nesse mundão, uma mãe com o facão na mão
Diante dos olhinhos secos das crias
Sem saber como dividir, a gota d’água que brilhava como se oceano fosse;
 
Falo daquele que encontra luz, luz numa cabeça bem presa
Presa numa muralha de medos, sempre usando capuz
Indo e voltando a lugar algum, cuspindo prego, espinho
Coisa azeda, detrito de todo tipo;
 
Você mesmo, Senhor do Cordel, que por tantos caminhos já cruzou
E que o lugar-comum visitou, como faço eu nessa hora
Repetindo o que já foi tão repetido, dando também minhas voltas
Nesse círculo onde sempre se retorna, não importa o dia nem a hora;
 
Vou dizer da minha maneira, do jeito que me cabe fazer
Quando no meio de tantas vias, nos variados momentos da vida
Cercado de assombração, Belzebu, Chupa Cabra, Candirú e proteção
Vendo nascer nesse mundo tanta genialidade, progresso, maldade e farsa
Li o que esse repentista escreveu e repito que "a melhor saída para a paz
Está sempre dentro de nós
";
 
Segue trovador dos desertos, carregando palavras por onde passa
Entre gente que muito da vida entende, só que de um modo diferente
Pois se eles não tem chance, nem tempo para ler
Sejam as histórias das Mil e Uma Noites, os casos de Malba Tahan
As peças de Shakespeare e os pensamentos de Serapião de Tmuis
Os Poemas de Pessoa, Drummond, Brecht, Rimbaud, Neruda e muitos mais;
 
Essa gente tem também saber, conhecimento que entra numa cabeça quente 
Pelas mãos feridas e a boca seca da sede, através dos pés descalços no chão!
E no meio de tanta confusão, pânico, pandemia, pandemônio, hemorragia
Nostalgia dos tempos que já foram bão, vou te deixar um abraço…
Abraço de um homem que gosta de beijos, que detesta inveja, desfeita
Injúria, violência, covardia, falta de opinião e desconsideração;
 
Aqui vai o meu agradecimento, um apanhado de ideias
Esse arrazoado de intenções, num angu de provocações
Direto para o Thomas, o Thomas Bakk, nosso atleta de ouro da imaginação
Um valente da criação, brigão genial, com palavra para qualquer posição
Representante dessa internacional riqueza regional que é o Cordel Tupiniquim
E talvez vocês cheguem a uma conclusão
Quem foi que nasceu primeiro, Bakk ou o Senhor dos Cordéis?


Exposição no Barbican Centre, A chuva que não molha
London, 11/2012



segunda-feira, 11 de maio de 2020


Sérgio Sant’Anna, 11 de maio de 2020

Se ninguém vai falar, falo eu. Soube nessa madrugada do passamento do Sérgio. Além da lamentável perda para seus familiares e amigos, Sérgio deixará um grande vazio para os admiradores da sua arte, onde me incluo entre estes e em relevância nacional para a literatura brasileira, onde fará enorme falta.

Me arrisco a dizer, apesar da minha distanciada relação pessoal com o escritor que o Sérgio sempre foi um democrata que lidava muito bem com o contraponto das ideias. Um independente no campo do pensamento e da cidadania.

Entre as diversas áreas em que atuava, ele foi também professor na Estação das Letras e foi lá que tive a felicidade de poder contar com sua generosidade, nos diversos cursos que lá participei como seu aluno. Sua crítica didática e construtiva, além das dicas de autores que ele entendia iriam enriquecer (Edgar Allan Poe) a minha escrita, aumentaram ainda mais a minha ligação com a sua obra.

No início de março passado, encontrei e comprei um livro do Sérgio, Um Romance de Geração, edição da Civilização Brasileira, na banca de promoções da livraria Prefácio, em Botafogo, lugar que frequento desde que abriram. Ao primeiro contato com aquele exemplar usado, me assustei com o simbolismo daquela cena. Uma livraria lutando para sobreviver, abraçada a um livro de segunda mão de um dos nossos melhores contistas vivos, um pequeno tesouro para aqueles que gostam de ler bons textos, largado numa banca de livros por um preço qualquer. Imediatamente me lembrei do Sérgio e tentei imaginar o que ele poderia comentar: Será esse o nosso eterno destino? Será esse o preço que um livreiro, editor e autor terão que aceitar para perpetuar o conteúdo desse seguimento da nossa cultura?

Li a seguir Um Romance de Geração e acabei por não compartilhar aquele momento com ele. Quanto aprendizado! A pouco fui verificar os livros que acabei por ler do Sérgio e entre estes coloquei a vista sobre O Monstro, O Vôo da Madrugada (O Gorila!), O Homem Mulher (Lencinhos), 50 Contos e 3 Novelas, O Concerto de João Gilberto, a Breve História do Espirito (ainda por ler) e encontrei A Senhorita Simpson (O Duelo) autografado por ele em 19/01/2005.

Sei que é prematuro se falar na dimensão da sua produção literária, mas na minha modesta percepção, digo que Sérgio Sant’Anna levou a nossa rica literatura a alcançar um melhor nível, principalmente por sermos um país que tem por tradição fechar livrarias, editoras, bibliotecas e pouco investir em novos autores. Isso realmente é um feito extraordinário. Gratidão, Mestre.  

Em ambas as fotos, algumas das suas obras